Energia renovável: custo alto e baixo retorno fazem petroleiras reavaliar investimentos

Além do negócio render menos que o petróleo, discurso de Trump contra renováveis contribui para desaceleração dos projetos.

Depois de uma largada acelerada das petroleiras na direção das energias renováveis, algumas das principais empresas do setor começam a reavaliar seus planos, movidas pelo peso, no próprio bolso, do alto custo das novas tecnologias, e agora podendo ser contagiadas pelo discurso “drill, baby, drill” do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Mesmo mantendo o discurso de compromisso com a descarbonização, os grandes projetos de energias renováveis dessas empresas entraram em compasso de espera no Brasil.

Empresas como BP, Shell e Equinor já deram os sinais de recuo, suspendendo ou pausando projetos. Até mesmo a brasileira Petrobras pisou no freio das eólicas offshore, estrelas da gestão anterior, mas que com Magda Chambriard no comando da estatal perdeu espaço para a produção de etanol, caminho escolhido pela executiva para substituir, no futuro, a gasolina.

Para especialistas ouvidos pelo Estadão/Broadcast, o discurso de Trump deve contagiar ainda mais o setor de petróleo, e o momento atual é de reflexão. Os projetos de energia renovável dão menos retorno para as petroleiras do que o petróleo, combustível que ainda vai reger a economia por muitos anos, principalmente em países menos ricos, como o Brasil. A tendência, avaliam, é buscar alternativas mais coladas com a atividade, como a captura de carbono.

O professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro Nivalde de Castro, avalia que alternativas como o hidrogênio verde no Brasil não deve ficar na mão de petroleiras, como se supunha, porque é um combustível concorrente. “Quem vai investir em hidrogênio não vai ser a petrolífera, porque isso é contra ela. Vai ser a Braskem, vai ser a JBS, vão ser as cimenteiras, as siderúrgicas, essas é que vão investir”, avalia.

A Shell confirmou ao Estadão/Broadcast que o projeto de hidrogênio verde no Porto do Açu, uma iniciativa de Pesquisa & Desenvolvimento (P&D) da companhia, foi pausado. “É importante diferenciar o que são projetos locais de P&D do negócio global de hidrogênio, que segue investindo segundo a estratégia Global da Shell, incluindo a construção de uma grande planta de hidrogênio na Holanda”, disse a companhia, que segue no Brasil com investimentos em P&D, incluindo uma planta piloto na USP, onde está sendo avaliada a viabilidade técnica e comercial de converter etanol em hidrogênio, para descarbonizar setores da indústria.

A Equinor também reafirmou a intenção de atingir a neutralidade em carbono até 2050, mas que precisa se adaptar às realidades do mercado. “Nesse contexto, a companhia atualizou a sua estratégia global de negócios. No Brasil, é necessário ressaltar que, com os recentes avanços em renováveis, já somos uma companhia de energia diversificada”, afirmou a empresa.

Para a diretora de Petróleo e Gás, Energias e Naval da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), Karine Fragoso, o momento é de reflexão, com as empresas buscando o reequilíbrio econômico diante da mudança de cenário.

“Acredito que é um reequilíbrio mesmo, em função das variáveis que vão mudando ao longo do tempo. Os projetos não foram abandonados e eu posso te dizer que hoje mesmo, eu acabei de vir de uma petroleira que me disse que o projeto não foi abandonado, mas para colocar um projeto desse de pé, precisa fazer estudo, são vários conceitos, vários desenhos que a gente vai estudando, vai afunilando até chegar num conceito que faz sentido”, explica.

Já o professor do Instituto de Economia da PUC-Rio, Edmar Almeida, avalia que existem questões conjunturais e estruturais para o recuo dos investimentos das petroleiras em energias renováveis. “Do ponto de vista conjuntural, você tem o contexto, principalmente no Brasil, e também em outros países, de que a rentabilidade dos projetos começa a diminuir. Por quê? Porque as melhores oportunidades de projetos já foram feitos, principalmente na Europa”, explica.

Almeida afirma que está havendo “um freio de arrumação”, depois que os acionistas dessas petroleiras viram que não estavam ganhando com a energia renovável tanto quanto ganham com petróleo. Para ele, os projetos não devem ser totalmente abandonados, mas a pressão dos controladores deve pesar daqui para frente, principalmente depois da eleição de Trump.

“Com essa pressão dos stake-holders (acionistas), pode ser que isso faça sentido para elas fazerem esse freio de arrumação, buscar uma estratégia mais lucrativa. Na verdade, é só um freio de arrumação, e as coisas devem caminhar mais lentamente, mas caminhar mesmo assim, dependendo, claro, da rentabilidade”, afirma.

Por Estadão.
https://www.estadao.com.br/economia/negocios/energia-renovavel-custo-alto-baixo-retorno-petroleiras/

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